domingo, 11 de agosto de 2024

Redoma


Meu pai escreveu meu nome com giz branco no quadro-negro e criou um círculo.

Eu tinha três anos e me lembro.

Também me lembro do cachorro do vizinho – que com a pata nos dava um bom-dia no caminho da padaria –, das bananas doces da casa de frutas e do maracujá azedo que cortou meu dedo com a faca. 

Na madrugada, ele cantarolava Romeu e Julieta para apagar minha bronquite e acendia o quarto com histórias de esperanças.  

Meu pai escreveu meu nome com giz branco no quadro-negro e criou um círculo.

De fora ficaram tristezas e medos. Dentro, só o amor.

Cintia Nascimento 

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Poema na varanda




No inverno, o sol bate aqui na varanda. Um sol fraquinho, aconchegante, renovador. Ele aquece a pele da gente e abre os sentidos para o correr da tarde.

Da rua, vem o som dos porteiros noticiando o balanço do dia, enquanto sacodem as vassouras para espantar folhas e outras coisinhas da calçada. Lá longe, e também perto, cachorros vizinhos reclamam suas vontades. Do terreno em frente – aquele que já teve uma casa grande, que depois virou escola –, saem estalos de um amontoado de concreto e tábuas, que explica o porquê dos ruídos que nos acordam bem cedinho.

Por causa do sol, a sinfonia que vem da praça também fica mais forte. As crianças correndo, gritando, provando que o brincar ainda tem, sim, lugar entre telas e frases curtas. Entre os postes, uma família de miquinhos desfila apressada na fiação, fugindo das bicadas do bem-te-vi, que defende o seu ninho. Um casal de maritacas dialoga alto, dança e desaparece no azul. No lugar, vem um avião, e o seu barulho traz a infância, quando uma aparição como esta era um acontecimento extraordinário, na monotonia de uma cidade do interior.

Passam carros, correm motos, bicicletas. Passa a tarde, passa o tempo, e o sol começa a avisar que já vai. Tudo simples, corriqueiro, repetitivo, e também tão singular. As pessoas, as vozes, os pássaros, o cheiro de flor, as gatinhas dormindo, o avião. Um recorte da vida de verdade. Aquela que está sempre aqui, atestando a sua concretude. Um poema que já vem pronto.

Que bom que, no inverno, o sol bate aqui na varanda!


Cíntia Nascimento

segunda-feira, 18 de março de 2024

Uma família de verdade

 


Do que é feita uma família? Pais, mães, filhos, avós, netos, bisnetos, tios, primos... Então as famílias são feitas de pessoas. Mas será que somente as pessoas são suficientes para construir uma família de verdade?

            Pensando nisso, comecei a analisar o que geralmente entendemos por família. Aí me lembrei lá do início, de quando, bem pequenininha, eu já vivia cercada de gente que me amava e que cuidava tão bem de mim. Da minha mãe cozinhando o que gostávamos aos domingos, do meu pai cantando à beira da minha cama, do meu vô me deixando brincar com as galinhas e da minha vó Maria me ensinando a ser uma boa pessoa, em cada pequeno gesto dela. Também me lembrei das tias maravilhosas, criando seus filhos, enfrentando a vida com coragem e humildade. Daquelas tardes de virado de banana, bolinho de polvilho, milho assado e de tantas outras delícias que enriquecem as nossas terras mineiras. E ainda dos primos e primas, esses seres tão essenciais nas nossas vidas. Seres que crescem com a gente, brincando, brigando, ensinando, inspirando e deixando uma parte de si em cada um de nós. E para completar, somei o meu irmão e todo o sentimento infinito que a relação entre irmãos é capaz de cultivar. Uma relação extremamente forte, com alguém que conhece todas as nossas dores e alegrias, pois está ao nosso lado enquanto crescemos e descobrimos o quanto o mundo pode ser, ao mesmo tempo, tão lindo e tão injusto.

            Depois pensei em quando, já grandes, escolhemos alguém para nos apaixonar, fortalecendo a rede de afetos que nos sustenta. Aí vêm os filhos e nossa vida ganha um sentido até então desconhecido. É como se todo o amor que acumulamos no decorrer da vida inteira tomasse uma só forma. Eles são a nossa extensão, a nossa melhor parte. A certeza de que viemos ao mundo por uma razão.

Então, que coisa incrível seria se pudéssemos, de algum modo, ter todos esses seres, elementos e sentimentos sempre ao nosso lado. Mas isso é impossível. Crescemos e saímos dos nossos quintais. Estudamos, nos casamos, viajamos, trabalhamos e – que pena! – nos distanciamos. Só que quando os laços são bem-amarrados, é verdade que não há nada que os desfaça. Nem o tempo, nem a distância, nem as crenças, nada. E é justamente por isso que quando encontramos aqueles que nos ajudaram, e ainda nos ajudam, a escrever as nossas histórias, o universo parece retroceder. Ele nos leva de volta àquelas tardes de brincadeiras e conversas, quando o que a gente só queria era molhar os pés no riacho com a certeza de que o futuro seria tão brilhante quanto as pedrinhas que estavam lá no fundo.

Assim, volto a perguntar: do que é feita uma família? Somente de pessoas? Não. Ela é feita de muito mais. De cada detalhe que vai nos construindo desde o momento em que surgimos no mundo. Uma família é feita de gestos, de admiração, de carinho, de solidariedade, de compreensão, de torcida pela felicidade do outro. E também é feita de ideias divergentes, de desentendimentos, de distâncias, de ressentimentos e, felizmente, de perdão.

Por isso, acho que a conclusão é bem simples: uma família é feita de pessoas – que estão aqui, que já partiram e que ainda virão –, de amor e de tudo o que cabe nessa palavra. E o melhor dessa conclusão é a certeza de que eu e cada um de nós, de perto ou de longe, juntos ou separados, temos algo muito valioso em comum: uma família de verdade.

 

Cíntia Nascimento

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Terreiro



Bonecas de milho cozinhavam mato nas panelinhas de barro, sobre o fogão de tijolo e gravetos.

As casinhas de taquara tinham poço de lata de cera.

As vaquinhas de chuchu pastavam, faceiras, ao lado de besouros e minhocas.

As galinhas ciscavam receios naquelas manhãs geladas de julho.

Do tanque, vinham o acalanto da torneira e o batuque da roupa na pedra.

Gatinhos brotavam de noite e eternizavam nossas manhãs.

Eu colhia a hortelã crescida ao lado da cerca e livrara as cebolinhas do picão.

Só tinha medo do pé de figo. Mais do que dos espinhos do limoeiro.

A escada de cimento protegia meus segredos de menina.

No porão, a balança antiga, o chão de limo verde, as penas pairando e os passos de botina.

Tantos tropeços nas colunas caídas, restos do que um dia também tinha sido casa.

 Banana frita com farinha, nos lanches das tardes recortadas por tios e primos.

Histórias germinavam junto ao formigueiro.

– Não passa do portão, menina!

Nunca. O mundo já estava todo ali.  


Cíntia Nascimento


Foto: Freepik

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

Quando acordei


Eu hoje quando acordei olhei o relógio e achei que já fosse tarde. 

Não tarde para o dia, mas tarde para a vida. 


Pensei nas coisas que queria ter feito e não consegui.

Me lembrei das palavras que queria ter dito e deixei escapar. 

Busquei os cenários que queria ter conhecido e simplesmente adiei.

Listei os abraços que queria ter dado e empurrei para depois.  

Enumerei os sabores que queria ter experimentado e,  por receio, desisti.

Achei mesmo que meu tempo havia chegado ao fim. 


Então olhei de novo o relógio buscando as horas que fugiram, e percebi: 

Só a pilha tinha acabado. Ainda era cedo. 

Os ponteiros estavam parados. 

Mas eu, não.


Cíntia Nascimento 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A mulher que vendia livros



            – Filha, me ajuda aqui! – foi o que ela disse, numa das tardes em que eu fazia o trajeto de volta ao metrô.

            – Segura nessa ponta, que eu puxo na outra – ordenou sem rodeios.

            E ali já estava eu, abaixada, arrastando com aquela desconhecida um imenso retângulo de lona, cheio de livros em cima. E isso em plena calçada da praia de Botafogo! Uns dois metros para a esquerda, uma ajeitadinha pra direita, e pronto:

            – Já tá bom, obrigada! É que eu estou operada – justificou, segurando a barriga.

            Depois daquela interessante interrupção, retomei o meu caminho. Só que dessa vez me acompanhou a imagem daquela senhorinha, que toda tarde estava ali vendendo livros de diferentes gêneros, tamanhos e idades. Muito magrinha, de óculos, cabelo branco, sentada no banquinho de plástico. E sempre lendo. A verdade é que, por quase três anos, sua figura já chamava a minha atenção, no cenário das automáticas idas e vindas do trabalho. Mas, daquele dia em diante, assumiu uma espécie de protagonismo.

Como resultado, comecei a reparar mais naquela frágil criatura.  E confirmei que ela ajudava a compor a carioquice do bairro, famoso por seus belos casarões e por suas ruas com nomes de barões e de marqueses, que deixam vivos os ciclos que marcaram nossa história: do ouro, do café, do leite, do café com leite.

O certo é que todo dia, da hora do almoço até a noite, lá estava ela, rodeada pelo corre-corre de gente de todo tipo. Ao seu lado, na calçada, conviviam pipoqueiros, camelôs, mendigos, crianças de uniformes, amigas com sorvetes e moradores com cachorros, desviando dos buracos, muitos buracos – tantos, que certa vez um até me derrubou de cara no chão, esfolando a minha manhã. Ainda assim, para compensar o tumulto e os tropeços, estava insistentemente ali, instalado, aquele clima de novela das nove, com Tom Jobim ao fundo, se sobrepondo às buzinas e às sirenes. Um misto de caos, fluidez e beleza. Dessas coisas que só o Rio tem. Para completar, em frente à emblemática vendedora de livros, estavam o mar, os belos barcos, o Morro da Urca, o Pão de Açúcar, o bondinho. E, como se tanta boniteza já não bastasse, atrás dela ficava o Cristo, observando.

Chovia, fazia sol, uma ventania danada e a sentinela literária lá, no seu posto. Ora lendo, ora conversando com vizinhos comerciantes, ora acolhendo clientes. Apenas falhava nas tempestades, quando a água jorrava dos bueiros e transformava a calçada em correnteza. Aí não tinha amor às letras que resistisse.

Botafogo não está mais no meu percurso há tempos, mas a mulher que vendia livros, sim. Qual era o nome dela, onde morava e de onde brotavam seus tesouros? Não descobri. Tampouco soube o que ela tanto lia, compenetrada, enquanto as belezas e os dissabores do bairro se desenrolavam ao seu redor. Com certeza eu deveria ter investigado. E espero sinceramente que ela continue lá, ao lado dos personagens que bailavam naquela cena. Quem sabe?

O que acontece é que agora, quando penso na força e na delicadeza que a presença da vendedora de livros emprestava àquelas tardes, concluo que o mistério não era o elemento principal da sua trama. O que realmente transbordava dos seus livros era outra coisa: poesia.  


Cíntia Nascimento



sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Poema "Procissão" é premiado pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais



É uma grande honra ter meu poema "Procissão" entre os vencedores do "Prêmio Literário Luiz Carlos Abritta de Prosa e Poesia 2022"" O concurso foi promovido pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais - Amulmig, e contou com mais de 500 obras nacionais e internacionais. 

A cerimônia de entrega do Prêmio aconteceu no dia 4 de outubro, na sede da Amulmig, em Belo Horizonte - MG. 



Procissão

 

Era gente de toda sorte,

de toda cor e herança.

Uma gente que cantava glórias,

exalando temor e esperança.

 

Era gente de toda praça,

de casebre e de mansão.

Uma gente misturada,

iguais pela vela na mão.

 

Era gente rezando baixo,

implorando o fim das dores.

Era gente humilde e esnobe,

unidas pelos dissabores.

 

Era gente descalçada,

mão no peito, olhar para o céu.

Era gente apaixonada,

flertando atrás do véu.

 

Era gente velhinha e frágil,

que mal parava em pé.

Uma gente tão sofrida,

só escorada pela fé.

 

E era gente pequenina,

que como eu, era criança.

Uma gente fascinada,

que ainda segue a procissão na lembrança.

 

Cíntia Nascimento