sexta-feira, 10 de março de 2023

Quando acordei


Eu hoje quando acordei olhei o relógio e achei que já fosse tarde. 

Não tarde para o dia, mas tarde para a vida. 


Pensei nas coisas que queria ter feito e não consegui.

Me lembrei das palavras que queria ter dito e deixei escapar. 

Busquei os cenários que queria ter conhecido e simplesmente adiei.

Listei os abraços que queria ter dado e empurrei para depois.  

Enumerei os sabores que queria ter experimentado e,  por receio, desisti.

Achei mesmo que meu tempo havia chegado ao fim. 


Então olhei de novo o relógio buscando as horas que fugiram, e percebi: 

Só a pilha tinha acabado. Ainda era cedo. 

Os ponteiros estavam parados. 

Mas eu, não.


Cíntia Nascimento 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A mulher que vendia livros



            – Filha, me ajuda aqui! – foi o que ela disse, numa das tardes em que eu fazia o trajeto de volta ao metrô.

            – Segura nessa ponta, que eu puxo na outra – ordenou sem rodeios.

            E ali já estava eu, abaixada, arrastando com aquela desconhecida um imenso retângulo de lona, cheio de livros em cima. E isso em plena calçada da praia de Botafogo! Uns dois metros para a esquerda, uma ajeitadinha pra direita, e pronto:

            – Já tá bom, obrigada! É que eu estou operada – justificou, segurando a barriga.

            Depois daquela interessante interrupção, retomei o meu caminho. Só que dessa vez me acompanhou a imagem daquela senhorinha, que toda tarde estava ali vendendo livros de diferentes gêneros, tamanhos e idades. Muito magrinha, de óculos, cabelo branco, sentada no banquinho de plástico. E sempre lendo. A verdade é que, por quase três anos, sua figura já chamava a minha atenção, no cenário das automáticas idas e vindas do trabalho. Mas, daquele dia em diante, assumiu uma espécie de protagonismo.

Como resultado, comecei a reparar mais naquela frágil criatura.  E confirmei que ela ajudava a compor a carioquice do bairro, famoso por seus belos casarões e por suas ruas com nomes de barões e de marqueses, que deixam vivos os ciclos que marcaram nossa história: do ouro, do café, do leite, do café com leite.

O certo é que todo dia, da hora do almoço até a noite, lá estava ela, rodeada pelo corre-corre de gente de todo tipo. Ao seu lado, na calçada, conviviam pipoqueiros, camelôs, mendigos, crianças de uniformes, amigas com sorvetes e moradores com cachorros, desviando dos buracos, muitos buracos – tantos, que certa vez um até me derrubou de cara no chão, esfolando a minha manhã. Ainda assim, para compensar o tumulto e os tropeços, estava insistentemente ali, instalado, aquele clima de novela das nove, com Tom Jobim ao fundo, se sobrepondo às buzinas e às sirenes. Um misto de caos, fluidez e beleza. Dessas coisas que só o Rio tem. Para completar, em frente à emblemática vendedora de livros, estavam o mar, os belos barcos, o Morro da Urca, o Pão de Açúcar, o bondinho. E, como se tanta boniteza já não bastasse, atrás dela ficava o Cristo, observando.

Chovia, fazia sol, uma ventania danada e a sentinela literária lá, no seu posto. Ora lendo, ora conversando com vizinhos comerciantes, ora acolhendo clientes. Apenas falhava nas tempestades, quando a água jorrava dos bueiros e transformava a calçada em correnteza. Aí não tinha amor às letras que resistisse.

Botafogo não está mais no meu percurso há tempos, mas a mulher que vendia livros, sim. Qual era o nome dela, onde morava e de onde brotavam seus tesouros? Não descobri. Tampouco soube o que ela tanto lia, compenetrada, enquanto as belezas e os dissabores do bairro se desenrolavam ao seu redor. Com certeza eu deveria ter investigado. E espero sinceramente que ela continue lá, ao lado dos personagens que bailavam naquela cena. Quem sabe?

O que acontece é que agora, quando penso na força e na delicadeza que a presença da vendedora de livros emprestava àquelas tardes, concluo que o mistério não era o elemento principal da sua trama. O que realmente transbordava dos seus livros era outra coisa: poesia.  


Cíntia Nascimento



sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Poema "Procissão" é premiado pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais



É uma grande honra ter meu poema "Procissão" entre os vencedores do "Prêmio Literário Luiz Carlos Abritta de Prosa e Poesia 2022"" O concurso foi promovido pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais - Amulmig, e contou com mais de 500 obras nacionais e internacionais. 

A cerimônia de entrega do Prêmio aconteceu no dia 4 de outubro, na sede da Amulmig, em Belo Horizonte - MG. 



Procissão

 

Era gente de toda sorte,

de toda cor e herança.

Uma gente que cantava glórias,

exalando temor e esperança.

 

Era gente de toda praça,

de casebre e de mansão.

Uma gente misturada,

iguais pela vela na mão.

 

Era gente rezando baixo,

implorando o fim das dores.

Era gente humilde e esnobe,

unidas pelos dissabores.

 

Era gente descalçada,

mão no peito, olhar para o céu.

Era gente apaixonada,

flertando atrás do véu.

 

Era gente velhinha e frágil,

que mal parava em pé.

Uma gente tão sofrida,

só escorada pela fé.

 

E era gente pequenina,

que como eu, era criança.

Uma gente fascinada,

que ainda segue a procissão na lembrança.

 

Cíntia Nascimento


sexta-feira, 22 de abril de 2022

Atração principal

 


         Parece que a lembrança de algumas histórias sobrevive ao tempo com o único objetivo de não nos afastar de quem realmente somos e fomos. Entre tantas, gosto de evocar uma que comprova que um dia fui uma destemida inocente. O roteiro conta com a cumplicidade de três amigas muito queridas, companheiras de um percurso pavimentado de peripécias. Foi quando, lá pelo início dos anos 1990, em Minas, cismamos que entraríamos de graça no show do cantor Fagner e, para isso, elaboramos um plano no mínimo imperfeito.

Munidas de câmera fotográfica sem filme, de gravador sem pilha e de muita cara de pau, desembarcamos na entrada do ginásio onde aconteceria o almejado espetáculo. Sem qualquer sinal de timidez, informamos que éramos estudantes e que queríamos entrevistar o cantor para um trabalho da faculdade. Óbvio que o segurança, do alto de sua notável carioquice, desconfiou daquelas quatro mineirinhas, todas muito bem arrumadinhas, que chegaram sem aviso algum. Não sei se foi por maldade ou por piedade mesmo, mas o fato é que o homem pediu que a gente esperasse enquanto ele iria falar com o astro da noite. Até parece! Ficamos ali paradas, enquanto uma fila de conhecidos nos olhava sem entender nada. Mas de uma coisa tínhamos certeza absoluta: o Fagner iria nos receber de braços abertos. Sem qualquer dúvida.

            Depois de muito tempo, muita conversa e muita enrolação, o segurança nos avisou que, infelizmente, o cantor não poderia nos receber naquela ocasião:

            – Mas, qualquer coisa, no mês que vem estaremos no Canecão! – disse o homem para as desoladas fãs, que concordaram e agradeceram com a maior educação.

            “Nem Canecão, nem canequinha!” Assim uma das amigas muito bem resumiu nossa tentativa frustrada. O plano foi um fiasco, porém aquela noite terminou em muitas risadas embaladas pelo orgulho de termos tentado.

A verdade é que cada uma de nós seguiu seu caminho. E, ainda hoje, nas felizes ocasiões em que podemos estar juntas, nos lembramos com saudades daquelas quatro corajosas garotas, que acreditavam poder conquistar o mundo, com ou sem ingresso. Não vimos o show, muito menos entrevistamos o Fagner. Mas aquele sentimento de que tudo poderia dar certo nas nossas vidas ainda é a atração principal de todas as nossas histórias.

Cíntia Nascimento

 

sábado, 8 de janeiro de 2022

"Fragmento" está no livro "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019"



É uma grande alegria ver "Fragmento" publicado no livro que resultou do "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019".

O poema conquistou o segundo lugar geral na categoria "Poesias". De âmbito internacional, o premio foi promovido pela Fundação Cultural da cidade de Foz do Iguaçu - PR.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019

 


O poema "Fragmento", presente no livro "Coisas e Crônicas", conquistou o segundo lugar geral na categoria "Poesia" do "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019".

Com reconhecimento internacional, o prêmio é promovido anualmente pela Fundação Cultural da Prefeitura de Foz do Iguaçu - PR. 


Fragmento*

Veio fraco,

leve, faceiro.

Afagou as folhas

festejou fevereiro.


Veio forte,

fogoso, valente.

Afastou vestidos,

feitiços, fantasmas viventes.

 

Veio feroz,

vírus, vertente.

Fez de feras, fantoches.

Afogou a fonte, veemente.

 

Vassoura sem vulto,

a vida do avesso, fragmento.

Veio você,

fez-se o vento.


Cíntia Nascimento

*Este poema também foi um dos vencedores do “3º Prêmio Literário de Poesia Portal Amigos do Livro 2013”, promovido pela Editora Scortecci, em São Paulo – SP.




domingo, 21 de março de 2021

Dia Mundial da Poesia


Hoje, 21 de março, é o Dia Mundial da Poesia. Uma ótima data para pensarmos no quanto a poesia e todas as suas nuances estão presentes em nossa vida cotidiana, nas coisas simples e corriqueiras do dia a dia. 

E foi este o foco da live "Arte & Inclusão: um olhar poético sobre a vida", da qual tive o prazer de participar ao lado da artista visual Chris Brazil. Superação e positividade também estiveram presentes nesse papo descontraído, recheado de poemas. 

Para conferir, basta acessar o link: