sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Poema "Procissão" é premiado pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais



É uma grande honra ter meu poema "Procissão" entre os vencedores do "Prêmio Literário Luiz Carlos Abritta de Prosa e Poesia 2022"" O concurso foi promovido pela Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais - Amulmig, e contou com mais de 500 obras nacionais e internacionais. 

A cerimônia de entrega do Prêmio aconteceu no dia 4 de outubro, na sede da Amulmig, em Belo Horizonte - MG. 



Procissão

 

Era gente de toda sorte,

de toda cor e herança.

Uma gente que cantava glórias,

exalando temor e esperança.

 

Era gente de toda praça,

de casebre e de mansão.

Uma gente misturada,

iguais pela vela na mão.

 

Era gente rezando baixo,

implorando o fim das dores.

Era gente humilde e esnobe,

unidas pelos dissabores.

 

Era gente descalçada,

mão no peito, olhar para o céu.

Era gente apaixonada,

flertando atrás do véu.

 

Era gente velhinha e frágil,

que mal parava em pé.

Uma gente tão sofrida,

só escorada pela fé.

 

E era gente pequenina,

que como eu, era criança.

Uma gente fascinada,

que ainda segue a procissão na lembrança.

 

Cíntia Nascimento


sexta-feira, 22 de abril de 2022

Atração principal

 


         Parece que a lembrança de algumas histórias sobrevive ao tempo com o único objetivo de não nos afastar de quem realmente somos e fomos. Entre tantas, gosto de evocar uma que comprova que um dia fui uma destemida inocente. O roteiro conta com a cumplicidade de três amigas muito queridas, companheiras de um percurso pavimentado de peripécias. Foi quando, lá pelo início dos anos 1990, em Minas, cismamos que entraríamos de graça no show do cantor Fagner e, para isso, elaboramos um plano no mínimo imperfeito.

Munidas de câmera fotográfica sem filme, de gravador sem pilha e de muita cara de pau, desembarcamos na entrada do ginásio onde aconteceria o almejado espetáculo. Sem qualquer sinal de timidez, informamos que éramos estudantes e que queríamos entrevistar o cantor para um trabalho da faculdade. Óbvio que o segurança, do alto de sua notável carioquice, desconfiou daquelas quatro mineirinhas, todas muito bem arrumadinhas, que chegaram sem aviso algum. Não sei se foi por maldade ou por piedade mesmo, mas o fato é que o homem pediu que a gente esperasse enquanto ele iria falar com o astro da noite. Até parece! Ficamos ali paradas, enquanto uma fila de conhecidos nos olhava sem entender nada. Mas de uma coisa tínhamos certeza absoluta: o Fagner iria nos receber de braços abertos. Sem qualquer dúvida.

            Depois de muito tempo, muita conversa e muita enrolação, o segurança nos avisou que, infelizmente, o cantor não poderia nos receber naquela ocasião:

            – Mas, qualquer coisa, no mês que vem estaremos no Canecão! – disse o homem para as desoladas fãs, que concordaram e agradeceram com a maior educação.

            “Nem Canecão, nem canequinha!” Assim uma das amigas muito bem resumiu nossa tentativa frustrada. O plano foi um fiasco, porém aquela noite terminou em muitas risadas embaladas pelo orgulho de termos tentado.

A verdade é que cada uma de nós seguiu seu caminho. E, ainda hoje, nas felizes ocasiões em que podemos estar juntas, nos lembramos com saudades daquelas quatro corajosas garotas, que acreditavam poder conquistar o mundo, com ou sem ingresso. Não vimos o show, muito menos entrevistamos o Fagner. Mas aquele sentimento de que tudo poderia dar certo nas nossas vidas ainda é a atração principal de todas as nossas histórias.

Cíntia Nascimento

 

sábado, 8 de janeiro de 2022

"Fragmento" está no livro "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019"



É uma grande alegria ver "Fragmento" publicado no livro que resultou do "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019".

O poema conquistou o segundo lugar geral na categoria "Poesias". De âmbito internacional, o premio foi promovido pela Fundação Cultural da cidade de Foz do Iguaçu - PR.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019

 


O poema "Fragmento", presente no livro "Coisas e Crônicas", conquistou o segundo lugar geral na categoria "Poesia" do "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2019".

Com reconhecimento internacional, o prêmio é promovido anualmente pela Fundação Cultural da Prefeitura de Foz do Iguaçu - PR. 


Fragmento*

Veio fraco,

leve, faceiro.

Afagou as folhas

festejou fevereiro.


Veio forte,

fogoso, valente.

Afastou vestidos,

feitiços, fantasmas viventes.

 

Veio feroz,

vírus, vertente.

Fez de feras, fantoches.

Afogou a fonte, veemente.

 

Vassoura sem vulto,

a vida do avesso, fragmento.

Veio você,

fez-se o vento.


Cíntia Nascimento

*Este poema também foi um dos vencedores do “3º Prêmio Literário de Poesia Portal Amigos do Livro 2013”, promovido pela Editora Scortecci, em São Paulo – SP.




domingo, 21 de março de 2021

Dia Mundial da Poesia


Hoje, 21 de março, é o Dia Mundial da Poesia. Uma ótima data para pensarmos no quanto a poesia e todas as suas nuances estão presentes em nossa vida cotidiana, nas coisas simples e corriqueiras do dia a dia. 

E foi este o foco da live "Arte & Inclusão: um olhar poético sobre a vida", da qual tive o prazer de participar ao lado da artista visual Chris Brazil. Superação e positividade também estiveram presentes nesse papo descontraído, recheado de poemas. 

Para conferir, basta acessar o link: 



 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Parceria artística



A amiga Christina Brazil, artista visual, e eu unimos nossas artes neste vídeo para mandar uma mensagem especial aos nossos amigos. 

Desejamos que ele também desperte em você os melhores sentimentos para o ano que vem chegando e para todos os outros também!


Texto adaptado de "O visitante" ("Coisas e Crônicas" - Cíntia Nascimento).
Para ler o texto completo: http://coisasecronicas.blogspot.com/2013/12/o-visitante.html

Para conhecer mais sobre o trabalho de Christina Brazil, acesse:
https://www.youtube.com/c/ChrisBrazilvidaearte
https://www.facebook.com/chrisbrazilvidaearte/
https://www.instagram.com/chrisbrazilvidaearte/?hl=pt-br








 

sábado, 19 de dezembro de 2020

O ciclista iluminado*


Papai Noel desembarcou de bicicleta bem no meio da praça, em frente à matriz. E não era uma miragem. Lá estava mesmo ele, pedalando em círculos, como quem procura por alguma coisa que ainda não sabe bem o que é. Um Papai Noel de verdade, com roupa supervermelha, botas pretas e saco de presentes nas costas. Mas de onde ele tinha vindo? Era o que todas as crianças da cidade, assim como eu, queriam saber naquela noite de dezembro.

Passamos todo o tempo do nosso passeio dominical olhando para o alto, onde o inesperado visitante circulava sobre sua ciclovia de metal iluminada. Já tonta de tanto rolar os olhos e procurar uma resposta para aquela aparição, a criançada não se continha:

– Como ele veio parar aqui?

– Só pode ter vindo direto do Polo Norte.

– Mas por que chegou tão cedo, antes do Natal?

As respostas para tantas perguntas eram uma incógnita. Mas todos concordavam em uma questão: aquele Papai Noel havia tornado a noite mais que especial. Na verdade, inesquecível. Nossas habituais brincadeiras cederam lugar para uma vigília hipnotizada. Ninguém queria saber de mais nada. Voltamos para a casa levando o bom velhinho para os nossos sonhos. Teve gente que chegou a fazer uma lista de desejos para entregar a ele no dia seguinte. É que combinamos de nos encontrar, no mesmo local, para ver se Papai Noel tinha descido e, quem sabe, até conversaria com a gente.

De manhã, na escola, ninguém se aguentava. A única ideia era correr para a praça e abraçar aquele visitante tão ilustre. Mal o sinal tocou, saímos em disparada morro acima, parando apenas por uns segundinhos para recuperar o fôlego. Só que fomos recebidos pela decepção.  A praça não era a mesma da noite anterior e nada do ciclista natalino.

– Moço, cadê o Papai Noel que estava aqui ontem? – perguntamos para o Joãozinho da dona Zefa, que aparava a grama do jardim.

– Ué?! Está no mesmo lugar. Olha ele ali! – respondeu, apontando para o centro da praça.

Não, não era possível. Ali só se via uma estrutura de ferro, onde no alto estava presa uma pseudobicicleta meio encardida. E, sobre ela, um ser estático, de plástico, vestido de vermelho. Tinha barba branca, é verdade, mas estava longe de ser aquele que tanto nos impressionou na noite anterior.

– Mas esse não é ele! Pra onde ele foi?

Sem esconder o descontentamento – e meio que segurando o choro –, deixamos a praça tentando resolver aquele mistério. Não se falava em outra coisa.

– Será que fizemos algo que Papai Noel não gostou? Será que nunca mais vai voltar?

– Acho que é verdade que ele não existe.

Quanta tristeza naquelas vidinhas interioranas... Até que alguém colocou a cabeça para funcionar e soltou essa:

– E se a gente voltar à noite? Quem sabe ele também volta?

Combinado. Marcamos para as oito, no mesmo lugar, com a mesma esperança. E quem chegou primeiro já estava de boca aberta quando surgiram os retardatários.

– Ele voltou! Ele voltou! – festejamos em coro.

E não é que tinha mesmo voltado? Papai Noel estava de novo lá, lindo, pedalando e iluminando a praça com suas lâmpadas brilhantes. A felicidade das crianças contagiou até quem não acreditava em milagres, muito menos naqueles feitos pelo lendário personagem. Todo o fascínio da noite passada novamente tomou conta da praça, da rua, da cidade.   

E foi assim durante todo o resto do mês. De dia, a gente até evitava passar pela praça. Para ter que ver aquela geringonça de ferro sem graça? Deus me livre! Todos nós queríamos era bater ponto à noite para cumprimentar aquele ser que havia caído do céu.

Foi pouco depois do Natal que Papai Noel nos deixou sem dizer adeus ou até breve. Não voltou no próximo ano, nem no seguinte. Com certeza foi pedalar em outras ciclovias e encantar outras infâncias como tão bem fez com a minha. Tão bem que a magia de suas pedaladas desde então vem iluminando todos os meus natais. 


Cíntia Nascimento

*Este conto foi selecionado e publicado na antologia "A Magia do Natal", promovida pela WebTV, em dezembro de 2020 (https://www.redewtv.com/2020/12/antologia-magia-do-natal-2x03-o.html).