Com muita alegria, compartilho minha estreia no cenário literário capixaba!
Meu poema "O Reflexo" foi selecionado e publicado pela revista "Animalista" da Editora Cleópatra Cartonera (Vila Velha - ES).
Com muita alegria, compartilho minha estreia no cenário literário capixaba!
Meu poema "O Reflexo" foi selecionado e publicado pela revista "Animalista" da Editora Cleópatra Cartonera (Vila Velha - ES).
Toda vez que alguém
da família ficava gripado, minha vó Maria fazia o seu famoso mingau de alho.
Uma sopinha salgada de fubá com cebola, muito alho e um ovo, minuciosamente
colocado quando ela já estava quase pronta. A receita sempre era servida no
prato fundo bege, com drapeado nas bordas, sobre a mesa de madeira gasta da
cozinha (aquela com a gaveta onde ficava o fumo de rolo e a palha). E era
saboreada sem pressa, acompanhada de pedaços de pão de sal, conversas e desejos
de melhoras.
“Levanta até
defunto!”, minha vó adorava dizer. Então eu ficava pensando por que ela não fez
o mingau para a sua amiga da roça, que havia morrido e pela qual ela vivia
chorando pelos cantos. Imaginava a amiga com a colher na boca, se levantando do
caixão no meio da igreja na missa de corpo presente – onde a vó fez questão de
me levar e de ainda me pegar no colo para que eu pudesse dar o adeus olhando
para o rosto da mulher já sem cor. Desses pensamentos literais e estranhos que
nos acometem na infância.
Como eu passava a
maior parte das horas na casa da vó, tinha a sorte de ganhar um pouco do mingau,
sempre que surgia uma vítima resfriada ou prestes a ficar. “Seu tio tá tossindo
tanto...” Oba! Lá vem o mingau de alho! Não é que eu desejasse a desgraça
alheia, mas aquele caldo fumegante alegrava as minhas tardinhas, principalmente
no inverno. É que, além do vírus da gripe, a receita espantava muita coisa:
tristezas, medos, desesperanças. E ainda trazia boas lembranças, notícias e
muitas risadas. Sem falar do amparo e da força para seguir tocando a vida. Sentimentos
genuínos, só encontrados nos gestos simples, feitos com amor. É verdade que muitas vezes eu fui o alvo do
mingau milagroso. Mesmo entre espirros, tosse e nariz fungando, não deixava de
curtir a iguaria especialmente preparada para mim, com todas as honras que ela
merecia.
Triste é que as
tardes de mingau de alho da vó Maria já acabaram faz tempo. Bom é que a
tradição tenha permanecido na família. Meu pai ainda se apega à receita quando
a gripe aparece ou simplesmente quando tem vontade mesmo. E eu também.
Hoje, com a
garganta em brasa e uma tosse que quase está me matando, fiz o meu próprio
mingau de alho. Bem caprichadinho, com tudo a que tenho direito. Tudo mesmo. Acrescentei
o cheiro maravilhoso do início da noite, a falação dos passarinhos e dos sapos já
prontos para dormir, o assovio do vento nas folhas do limoeiro, os passos leves
no assoalho e até a chuva fininha, que trazia o ar gelado e fazia a gente
fechar as janelas mais cedo, carimbando o desfecho do dia.
“Toma tudo que você vai melhorar rapidinho!”. Sim, vó. Mais uma vez você estava certa. Já me sinto muito melhor.
Cíntia Nascimento
Eu tinha três anos e me lembro.
Também me lembro do cachorro do vizinho – que com a pata nos dava um bom-dia no caminho da padaria –, das bananas doces da casa de frutas e do maracujá azedo que cortou meu dedo com a faca.
Na madrugada, ele cantarolava Romeu e Julieta para apagar minha bronquite e acendia o quarto com histórias de esperanças.
Meu pai escreveu meu nome com giz branco no quadro-negro e criou um círculo.
De fora ficaram tristezas e medos. Dentro, só o amor.
Cintia Nascimento
No inverno, o
sol bate aqui na varanda. Um sol fraquinho, aconchegante, renovador. Ele aquece
a pele da gente e abre os sentidos para o correr da tarde.
Da rua, vem o
som dos porteiros noticiando o balanço do dia, enquanto sacodem as vassouras para
espantar folhas e outras coisinhas da calçada. Lá longe, e também perto,
cachorros vizinhos reclamam suas vontades. Do terreno em frente – aquele que já
teve uma casa grande, que depois virou escola –, saem estalos de um amontoado
de concreto e tábuas, que explica o porquê dos ruídos que nos acordam bem
cedinho.
Por causa do sol,
a sinfonia que vem da praça também fica mais forte. As crianças correndo,
gritando, provando que o brincar ainda tem, sim, lugar entre telas e frases
curtas. Entre os postes, uma família de miquinhos desfila apressada na fiação,
fugindo das bicadas do bem-te-vi, que defende o seu ninho. Um casal de maritacas
dialoga alto, dança e desaparece no azul. No lugar, vem um avião, e o seu barulho
traz a infância, quando uma aparição como esta era um acontecimento extraordinário,
na monotonia de uma cidade do interior.
Passam carros,
correm motos, bicicletas. Passa a tarde, passa o tempo, e o sol começa a avisar
que já vai. Tudo simples, corriqueiro, repetitivo, e também tão singular. As
pessoas, as vozes, os pássaros, o cheiro de flor, as gatinhas dormindo, o
avião. Um recorte da vida de verdade. Aquela que está sempre aqui, atestando a
sua concretude. Um poema que já vem pronto.
Que bom que, no inverno, o sol bate aqui na varanda!
Cíntia Nascimento
Do que é feita uma família? Pais, mães, filhos, avós, netos, bisnetos, tios, primos... Então as famílias são feitas de pessoas. Mas será que somente as pessoas são suficientes para construir uma família de verdade?
Pensando nisso, comecei a analisar o que geralmente entendemos por família. Aí me lembrei lá do início, de quando, bem pequenininha, eu já vivia cercada de gente que me amava e que cuidava tão bem de mim. Da minha mãe cozinhando o que gostávamos aos domingos, do meu pai cantando à beira da minha cama, do meu vô me deixando brincar com as galinhas e da minha vó Maria me ensinando a ser uma boa pessoa, em cada pequeno gesto dela. Também me lembrei das tias maravilhosas, criando seus filhos, enfrentando a vida com coragem e humildade. Daquelas tardes de virado de banana, bolinho de polvilho, milho assado e de tantas outras delícias que enriquecem as nossas terras mineiras. E ainda dos primos e primas, esses seres tão essenciais nas nossas vidas. Seres que crescem com a gente, brincando, brigando, ensinando, inspirando e deixando uma parte de si em cada um de nós. E para completar, somei o meu irmão e todo o sentimento infinito que a relação entre irmãos é capaz de cultivar. Uma relação extremamente forte, com alguém que conhece todas as nossas dores e alegrias, pois está ao nosso lado enquanto crescemos e descobrimos o quanto o mundo pode ser, ao mesmo tempo, tão lindo e tão injusto.
Depois pensei em quando, já grandes, escolhemos alguém para nos apaixonar, fortalecendo a rede de afetos que nos sustenta. Aí vêm os filhos e nossa vida ganha um sentido até então desconhecido. É como se todo o amor que acumulamos no decorrer da vida inteira tomasse uma só forma. Eles são a nossa extensão, a nossa melhor parte. A certeza de que viemos ao mundo por uma razão.
Então, que coisa incrível seria se pudéssemos, de algum modo, ter todos esses seres, elementos e sentimentos sempre ao nosso lado. Mas isso é impossível. Crescemos e saímos dos nossos quintais. Estudamos, nos casamos, viajamos, trabalhamos e – que pena! – nos distanciamos. Só que quando os laços são bem-amarrados, é verdade que não há nada que os desfaça. Nem o tempo, nem a distância, nem as crenças, nada. E é justamente por isso que quando encontramos aqueles que nos ajudaram, e ainda nos ajudam, a escrever as nossas histórias, o universo parece retroceder. Ele nos leva de volta àquelas tardes de brincadeiras e conversas, quando o que a gente só queria era molhar os pés no riacho com a certeza de que o futuro seria tão brilhante quanto as pedrinhas que estavam lá no fundo.
Assim, volto a perguntar: do que é feita uma família? Somente de pessoas? Não. Ela é feita de muito mais. De cada detalhe que vai nos construindo desde o momento em que surgimos no mundo. Uma família é feita de gestos, de admiração, de carinho, de solidariedade, de compreensão, de torcida pela felicidade do outro. E também é feita de ideias divergentes, de desentendimentos, de distâncias, de ressentimentos e, felizmente, de perdão.
Por isso, acho que a conclusão é bem
simples: uma família é feita de pessoas – que estão aqui, que já partiram e que
ainda virão –, de amor e de tudo o que cabe nessa palavra. E o melhor dessa
conclusão é a certeza de que eu e cada um de nós, de perto ou de longe, juntos
ou separados, temos algo muito valioso em comum: uma família de verdade.
Cíntia Nascimento
Bonecas de
milho cozinhavam mato nas panelinhas de barro, sobre o fogão de tijolo e
gravetos.
As casinhas
de taquara tinham poço de lata de cera.
As vaquinhas
de chuchu pastavam, faceiras, ao lado de besouros e minhocas.
As galinhas
ciscavam receios naquelas manhãs geladas de julho.
Do tanque, vinham
o acalanto da torneira e o batuque da roupa na pedra.
Gatinhos
brotavam de noite e eternizavam nossas manhãs.
Eu colhia a
hortelã crescida ao lado da cerca e livrara as cebolinhas do picão.
Só tinha
medo do pé de figo. Mais do que dos espinhos do limoeiro.
A escada de
cimento protegia meus segredos de menina.
No porão, a balança antiga, o chão de limo verde, as penas pairando e os passos de
botina.
Tantos tropeços
nas colunas caídas, restos do que um dia também tinha sido casa.
Banana frita com farinha, nos lanches das
tardes recortadas por tios e primos.
Histórias germinavam
junto ao formigueiro.
– Não passa
do portão, menina!
Nunca. O
mundo já estava todo ali.
Cíntia Nascimento
Foto: Freepik
Eu hoje quando acordei olhei o relógio e achei que já fosse tarde.
Não tarde para o dia, mas tarde para a vida.
Pensei nas coisas que queria ter feito e não consegui.
Me lembrei das palavras que queria ter dito e deixei escapar.
Busquei os cenários que queria ter conhecido e simplesmente adiei.
Listei os abraços que queria ter dado e empurrei para depois.
Enumerei os sabores que queria ter experimentado e, por receio, desisti.
Achei mesmo que meu tempo havia chegado ao fim.
Então olhei de novo o relógio buscando as horas que fugiram, e percebi:
Só a pilha tinha acabado. Ainda era cedo.
Os ponteiros estavam parados.
Mas eu, não.
Cíntia Nascimento