terça-feira, 28 de julho de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
quarta-feira, 1 de julho de 2015
terça-feira, 30 de junho de 2015
O barquinho amarelo
Já
faz tempo que uma amiga me pediu para contar um pouco sobre nossa aventura de
aprender a ler. As primeiras letras, a surpresa das pequenas palavras, a alegria
de decifrar o mundo. E foi pensando nisso que ressuscitei nosso livro “O
Barquinho Amarelo”, o grande responsável por nos iniciar nesta preciosidade
chamada literatura: “Marcelo faz um barquinho. Marcelo faz um barquinho de
papel. Marcelo diz: Olhe o meu barquinho! Rosinha diz: Um barquinho amarelo.
Que beleza!”.
E
que beleza eram também aqueles dias! As fichas de cartolina coladas nas paredes
da sala do primeiro ano não nos deixavam esquecer o barquinho e todas as
palavras por onde ele navegava. Visualizando até cansar, a gente decorava a
imagem e, como mágica, a escrita nascia de nossas mãozinhas. Junto com o
barquinho, havia Cocota – a incrível galinha que botava ovos azuis –, as bolhas
de sabão e também o cavalo branco do Marquinhos, que cavalgava pela colina verde.
Dias de muito movimento, como se pode perceber. Bastava chegar com meu enorme
uniforme azul-marinho e meus sapatos de gasta camurça marrom para correr os
olhos pela sala e conferir se havia alguma nova palavra pedindo para ser
decorada. E sempre havia. O certo é que, a cada novidade, nosso vocabulário ia
ficando cada vez mais extenso. Tanto que uma hoje querida professora, num ato de
desespero, me colocou de castigo, de cara para a parede de feltro verde: “Chega
de tagarelar, menina!”.
Todo
mundo sempre diz que a gente um dia vai sentir saudade da escola. É a mais genuína
verdade. Vejo com toda nitidez a criançada correndo na poeira do pátio de terra, com os
rostos vermelhos e a boca sapecada pelo cortante frio sul-mineiro. A gritaria
na hora do recreio, quando a gente corria para o portão e comprava algodão-doce
quentinho, feito na hora. E as festas juninas? Só os ensaios já despertavam toda
a nossa alegria. Inesquecível também é a apresentação que uma vez fizemos para
comemorar a Abolição da Escravatura. Incorporando escravos, com roupas de
algodão cru e os pulsos atados por elos feitos de papel laminado dourado, nós
irradiamos todo o nosso talento para as artes cênicas. Um espetáculo
simplesmente memorável.
Mas
como em toda história há delícias e pavores, na nossa havia a mulher vestida de
branco, que morava no banheiro, quase sempre inundado. E também o querido
dentista, que já da porta da sala apontava quem seria a vítima do dia. Sem
falar de quando caí duas vezes numa mesma tarde e arranquei as tampas dos
joelhos. E no pastel encharcado de guaraná que batia ponto diariamente na minha
lancheira. Até nisso tem saudade.
Foram
cinco anos eternos, que carregaremos para sempre. Lógico que diferenças
existiam e também algumas não tão raras briguinhas, mas isso não interessava.
Nem quem era mais rico, nem quem era mais pobre. Nada disso. Éramos todos
amigos, juntos, passageiros do mesmo barquinho amarelo. Agradeço à minha amiga
que me fez trazer de volta estas lembranças e perceber o quanto estão vivas. Imagino
que o barquinho do Marcelo tenha desbotado e, quem sabe, até já afundou. É uma
pena, porque o nosso continua navegando. E com todas as suas cores.
Cíntia Nascimento
terça-feira, 26 de maio de 2015
Sala dos Milagres
Duvido
que haja neste mundo uma só criança que não tenha certo medo de Aparecida do Norte.
Eu tinha muito (e, se bobear, tenho até hoje). Aquela fé transbordante, as
histórias de aparições sempre cercadas de sofrimento, a aura de desespero
cobrindo cada cantinho da cidade. De fato hoje tudo pode me parecer tocante,
bonito e até encantador do ponto de vista antropológico. Mas para uma pessoinha
de cinco, seis anos, nada poderia ser mais assustador.
Eram
muitos os itens listados por meus pesadelos: a marca de ferradura na porta da
Igreja Velha, os pagadores de
promessas com os pés em carne viva, a Mulher-aranha e a Monga, estrelas do parquinho onde também
tinha o carrinho bate-bate – só que este eu adorava! Porém havia um lugar, na então chamada
Igreja Nova, que reunia todos os meus pavores: a Sala dos Milagres.
Consigo
ainda sentir o cheiro de vela misturado com mofo, suor e toda variedade de odores
que se possa imaginar. Que ninguém me entenda mal, pois hoje sei a importância
de um lugar como aquele para acolher os desesperos que nos acometem nesta vida.
Mas, naquela época, a Sala dos Milagres era para mim uma representação de tudo
o que havia de mais tenebroso. Como se já não bastassem as cabeças, os pés e
os braços de cera emoldurados por infinitos chumaços de cabelos trançados, amarrados
com fita e envoltos num mar de objetos cotidianos, um detalhe tornou-se meu
carrasco oficial. Foi durante uma das minhas muitas visitas ao santuário que vi, num
quadro na parede, minha camiseta de malha, aquela listradinha de amarelo e
vermelho.
Não era bem a minha, mas era idêntica. Foi só chegar perto para constatar que junto à peça de roupa estava uma fotografia antiga retratando uma casa queimada e, do lado, um garoto da minha idade, tristonho, todo enfaixado. E o pior: a camiseta estava chamuscada e manchada de sangue. Pois bem. Eu ainda não sabia ler, mas foi só juntar os elementos para entender que aquele pobre amiguinho estava vestindo a minha camiseta – não a minha, mas a dele – quando quase morreu carbonizado. Pronto: foi o suficiente para eu perder a viagem remoendo todas as cenas daquela quase tragédia.
Não era bem a minha, mas era idêntica. Foi só chegar perto para constatar que junto à peça de roupa estava uma fotografia antiga retratando uma casa queimada e, do lado, um garoto da minha idade, tristonho, todo enfaixado. E o pior: a camiseta estava chamuscada e manchada de sangue. Pois bem. Eu ainda não sabia ler, mas foi só juntar os elementos para entender que aquele pobre amiguinho estava vestindo a minha camiseta – não a minha, mas a dele – quando quase morreu carbonizado. Pronto: foi o suficiente para eu perder a viagem remoendo todas as cenas daquela quase tragédia.
– Não vou mais vestir roupa velha! – foi o que sentenciei aos prantos, quando
retornei daquele desventurado passeio.
Claro que
ninguém entendeu nada. Simplesmente foi o jeito que encontrei de tentar manter
distância da camiseta macabra. De tão impressionada, acordei várias vezes
lutando contra o fogo. E ainda discursava para todo mundo que eu tinha medo de
morrer.
– Mas por
quê? – era o que todos queriam saber. E quem disse que eu revelava o motivo?
Aí virei
tema de inquietação familiar. Minha mãe até me levou pra benzer na casa do
padre. Sem sucesso. Nada conseguia me tirar daquele estado de obsessão pelos
assuntos da morte. Só o tempo.
Ainda voltei
muito à Aparecida depois do ocorrido, já que a cidade era o destino anual que
pontuava a minha infância. Sorte que coisas muito boas também faziam parte do
passeio. A festa dos primos na Kombi lotada, as fotos de lambe-lambe na praça, os
brinquedos e outras lembrancinhas tantas que a gente comprava por lá. Sem falar
na gigantesca passarela, que parecia uma coisa de outro planeta. Agora já faz tempo
que não vou, mas sei que a cidade está mudada. A Basílica ganhou uma imensa
infraestrutura para receber os romeiros com seus milhares de pedidos e
agradecimentos pelas bênçãos colhidas. Longe de mim dizer que não voltarei. Tenho
vontade de conferir o que o tempo fez com a veracidade das minhas lembranças. Talvez
um dia. Só acho melhor não chegar muito perto da Sala dos Milagres.
Cíntia Nascimento
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Só porque
Porque todo abraço é tão forte como se fosse sempre
o último.
Porque nenhuma madrugada é longa o bastante pra
curar a dor que eu não quero que você sinta.
Porque eu pensava que conhecia todas as cores do
mundo, até você abrir os olhos.
Porque são seus os passos que ouço muito antes da
chegada.
Porque se antigamente eu pulava sem paraquedas,
agora nem chego perto do penhasco: a vida não é mais só minha.
Porque se hoje disfarço meus temores pra você
passear com amigos, amanhã vou esmagar todos os meus medos pra você poder
seguir sozinho.
Porque o certo é que nada terá qualquer vestígio de
sentido se você não for feliz.
Mas é só porque eu sou sua.
Só porque eu sou mãe.
Cíntia Nascimento
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