terça-feira, 6 de agosto de 2013

Amigo jacaré




Sabe quando a gente ri de turista que acha que no Brasil animais selvagens caminham pelas ruas? Pois no Rio de Janeiro isso acontece. Pelo menos no Recreio. Quase caí quando pela primeira vez vi, no caminho para a praia, uma família de jacarés descansando ao sol, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E isso, no meio da cidade.


Alguém já havia me contado. Difícil foi acreditar. Mas juro: eles estão lá mesmo. Nem aí para o vai e vem de gente salgada que passa o dia inteiro pela ponte de madeira alojada sobre o canal, onde moram os bichos. E para completar o estilo selva de ser, de vez em quando uma turminha de capivaras se acomoda por perto, numa boa. E ficam todos juntos, como se colocassem o assunto em dia. Isso sem falar nos macacos, que por muito pouco não pulam dentro da bolsa da gente. Misturados, mas cada um na sua. Bonito de se ver.


No início, eu dava voltas para chegar à praia, me arriscava nas faixas de pedestres, caminhava léguas sob o sol ardente. Tudo para fugir daquela visão quase amazônica. Depois fui criando coragem. Mas ainda voava pela ponte feito um corisco, sem olhar pra lado nenhum. Agora, que nada! Até já são meus amigos, os bichinhos. Sinto falta quando não estão por perto. Tem filhote, jacaré pequeno, médio e os grandões, de dois metros de comprimento. Tem para todos os gostos e medos. Dizem que moram por aqui há séculos. Chegaram primeiro.


Pura verdade é que o sol de fim de semana não seria o mesmo se o Recreio não tivesse esses tão preciosos moradores. Dá vontade de pedir licença, cumprimentar. 


- Bom dia, amigo jacaré! Estou passando. Não me ataque. Por favor.


Mas, se esse inusitado carioca pudesse falar minha língua, é certo que não seria de muita conversa. Impossível ter um bom dia vivendo num lugar poluído, desrespeitado. O papo teria que começar diferente.


– Me desculpe, amigo jacaré. Por invadir sua casa, por lhe dar água poluída para beber, por te obrigar a criar seus filhotes nessa imundice. Mas continue por aqui, amigo jacaré. Por favor.


Cíntia Nascimento









sexta-feira, 19 de julho de 2013

Meus sentimentos



       E pensar que tem gente que não gosta de gatos! Eu gosto. Na verdade, adoro. Chego a ser chata, gateira mesmo. Daquelas que têm brinco, colar, pingente, pijama, tudo com aquela carinha cheia de bigodes. E isso vem de sempre. Dos tempos em que eu passava as tardes namorando as famílias felinas que habitavam o quintal da minha avó. 



Era um ir e vir de gatos de todos os tipos, tamanhos e personalidades. Da mesma forma que surgiam, desapareciam sem deixar paradeiro. Coisa gostosa de lembrar é quando uma gata deu cria no porão, tornando minha infância mais mágica. Triste foi que durou pouco. Desapareceu numa noite escura, carregando a ninhada. Só deixou saudades.


Nem sei quantas vezes quis ter um gatinho. Num certo segundo de compadecimento, minha mãe deixou que eu levasse para casa um filhote que tomava chuva. Mas, de manhã, recebi a notícia: “A mamãe do gatinho passou aqui e levou ele embora.” Sei. 


Verdade é que meu dia chegou, há quase oito anos. Foi quando passei pelo pequeno pet shop, que ficava perto do meu apartamento, em Juiz de Fora. Lá estava ela. Pequenina, se contorcendo para bater a patinha no brinquedo amarrado na gaiola. Minutos depois, já se acabava de tanto pular na minha sala. Ligou o som, subiu no vaso de planta. Começou logo a ser a minha Pandora. Legal é que eu estava de mudança para São Paulo e precisei passar aqueles ferventes dias de janeiro com todas as janelas fechadas. Não queria que Pandora mergulhasse sem asas do 10º andar. 


– Com estas gotinhas, ela vai dormir a viagem toda – garantiu a veterinária.


Dormiu nada. Miou e reclamou durante os 90 minutos de voo, enquanto eu recebia os olhares fuzilantes de outros passageiros, pessoas muito infelizes. E para completar a série “As primeiras aventuras de Pandora”, ela estreou na noite paulistana dormindo num hotel, onde entrou escondida, é claro. Meu marido vive dizendo que eu cheguei de gata e cuia. 


E Pandora seguiu sua vidinha dorminhoca, entremeada por muitos arranhões no sofá. Também sempre fazendo jus ao nome, abrindo e explorando caixas, caixinhas e caixotes. Só mudou sua rotina quando viu entrar pela porta um bebê rechonchudo. Achou que era seu filho, só pode ser. Assumiu a maternidade e passou a defender com unhas e garras – literalmente – aquele ser. Comprovou isso quando deixei o bebê com a diarista e saí, pela primeira vez. Na volta, encontrei a moça apavorada, contando que Pandora empacou na porta do quarto e não deixou ela se aproximar do filhote (do meu), ameaçando atacá-la. Uma verdadeira gata de guarda.


Sei que gatos não gostam de mudanças, mas Pandora é diferente. Teve que arrumar mais uma vez as malas e agora ronrona em terras cariocas, sem nenhuma crise existencial. Pelo contrário. Adora deitar à sombra nos dias calorentos e ficar observando a paisagem com cheiro de maresia. E também é meio bruxa, vidente, sensitiva. Quando uma pessoa estranha entra em casa, dá logo seu veredito. Se gostar, enrosca-se nas pernas, atira-se no colo. Se achar que o indivíduo tem alguma coisa errada, some.  É a nossa juíza. Coisas de Pandora.


Não liga se estou descabelada, se naquele dia não quero conversa ou se reclamo da vida. Só quer saber de se aconchegar e mexer as patinhas dianteiras, numa marcha quase infinita, fazendo aquela inigualável massagem e dizendo: “Gosto de você”. Porque Pandora fala. E ainda é generosa. Até deixa a gente morar na mesma casa e dormir na mesma cama que ela!


E pensar que tem gente que não gosta de gatos! Para quem é desse tipo, meus sentimentos.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Se









Se busco brisa, furacão.
Se quero vento, tsunami, tornado, tufão.
Se o alvo é sombra, sol do Saara.
Se os pés na Terra, a cabeça em Plutão.

Se há flores, quero corais.
Se é sertão, nadar no mar.
Se planície, precipício.
Se tempestade, quero o luar.

Se for pássaro, quero cavalo-marinho.
Se água-viva, coala, porco-espinho.
Se savana, nevoeiro, neve.
Se só árvore, não serve.

Se estrela cadente, Via Láctea.
Se calmaria, erupção.
Se gotas de chuva, catarata.
Se petróleo, sal, feijão.

Se tem semente, quero milharal.
Se abismo, chapada, clareira.
Se há riacho, areia do deserto.
Se montanha, cordilheira.

Se for ouro, alumínio.
Se esmeralda, diamante.
Se céu azul, buraco negro.
Se vida longa, só um instante.

Cíntia Nascimento